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Mani Alvarez

A palavra é nova, mas o conhecimento é antigo. A Transpessoal é uma forma de lidar com a realidade de maneira mais flexível, porque foca um lugar para além da mente pessoal. Este é o significado da palavra trans-pessoal. Para além da mente há o infinito de realidades possíveis.

O cinema já descobriu tudo isso que a Transpessoal diz. O filme Matrix está aí para nos mostrar as múltiplas possibilidades da mente. Ele nos mostra que não percebemos esse infinito de possibilidades porque estamos “chipados” pela matrix. Vivemos como sonâmbulos, de forma inconsciente, e não nos damos conta de toda a potencialidade de nossas mentes.

Hoje, a cibernética coloca em nossas mãos um mundo que até então não suspeitávamos. E não pensem que é de mentirinha: o mundo virtual existe. Apesar de constituir um campo absolutamente para além dos nossos sentidos, ele atua em nosso corpo, mexe com nossos sentimentos, interfere em nossa fisiologia, provoca emoções, desperta ódio ou amor, induz o prazer. Quem nunca ouviu falar de sexo virtual?

Isso nos remete ao domínio de uma ciência que começa a se desenvolver e a ganhar espaço nas Universidades, nas pesquisas, na literatura. Estamos falando da abordagem Transpessoal. Surgiu no coração da década de 60, quando o levante dos estudantes e dos operários no mundo inteiro questionava as relações autoritárias na política, as relações de poder no trabalho, a dominação econômica, a discriminação entre os sexos, entre as raças, enfim, a própria ordem dominante no mundo.

Surgiu também como um brado de alerta: façam amor, não façam a guerra. Isto não foi um mero slogan do movimento hyppie. Isto significava uma verdadeira mudança de paradigma. O amor subverte as relações de poder, instaurando uma nova ordem. Porque o amor respeita, acima de tudo, a vida. O amor unifica, re-une aquilo que a guerra destrói e des-une. Um paradigma que leva à guerra é diferente de um paradigma que leva ao amor. Naquela época, as pessoas começavam a questionar a própria noção de realidade.

Foi então que começaram a surgir pesquisas e estudos sobre a capacidade da consciência alcançar dimensões mais sutis da realidade, dimensões onde outras são as leis. Descobriu-se que a consciência pode vivenciar outros estados que não só os do sono ou do sonho. Estabeleceu-se, então, uma equação que é o que fundamenta a abordagem Transpessoal: R (f) EC. Isto significa: Realidade é uma função do Estado de Consciência.

A partir desse postulado, as disciplinas deixam de ser vistas como conflitantes entre si e passam a ser compreendidas como sendo verdadeiras e coerentes, dentro de determinado estado de consciência e para aquela realidade específica.

Exemplo: A psicanálise. Freud descobriu a realidade do inconsciente e percebeu que os conteúdos represados num certo nível da mente podem afetar nosso corpo, nossa saúde, nosso mundo. Nos sonhos, ele descobre a existência de uma outra realidade virtual desfilando diante de nossos olhos atônitos, enquanto dormimos. Quando sonhamos, outras são as leis. Não existe contradição, nós podemos voar, ver pessoas mortas, nos transformar em outra pessoa, etc.

A realidade do inconsciente é falsa? Claro que não. É apenas uma “outra” realidade, tanto quanto a realidade da física quântica é “outra“ realidade, com outras leis determinantes.

Ainda no campo da psicologia, um outro gênio também descobriu, para além do inconsciente individual, a existência do inconsciente coletivo. Jung descobre aquilo que chamou de “arquétipos”, ou seja, um campo de forças ou energias que presidem nosso psiquismo, que são atemporais e universais, e que atuam em nossa vida pessoal, em nossos sentimentos, em nossas escolhas. Aqui também ele constatou que outras eram as leis que presidiam essa realidade vivenciada por outro nível de consciência, como se tratasse de uma camada mais profunda do psiquismo.

Na década de 60, quando a Transpessoal começava a delinear sua trajetória, um outro pesquisador europeu de nome Stanislav Grof, descobre que todos nós temos matrizes perinatais que determinam nossa personalidade, nossos sintomas e até nossas produções artísticas. Elas são formadas durante o tempo de gestação e se tornam muito intensas nas fases que antecedem o parto. Através de um método regressivo chamado de “respiração holotrópica”, ele conseguiu provocar artificialmente uma regressão da consciência a níveis muito profundos, e descobriu que existem memórias gravadas desde antes da concepção, durante a gestação e na fase do nascimento. Essas memórias costumam ser muito traumáticas e ficam impressas de forma inconsciente até que, por algum motivo fortuito, elas podem vir a tona e se tornar conscientes.

Outras pesquisas foram feitas com yogues em meditação, num contexto rigoroso de laboratório, com instrumentos de biofeedback, aparelhos neurológicos, eletroencefalogramas, para medir as ondas alfa de seus cérebros. E constataram que nosso cérebro é capaz de controlar todas as funções fisiológicas do corpo, em completa consciência, num rítmo próximo daqueles que são considerados quase-morte. E que nesse estado, emergem funções mentais pouco conhecidas, como a telepatia, a precognição, a ausência do corpo, êxtases místicos, etc.

Outras experiências com pacientes apresentando morte cerebral e em estado vegetativo, quando se recuperam relatam vivências fora do corpo, encontros com parentes mortos, com divindades, anjos, enfim, apontam para a existência de uma outra realidade distinta, onde não existem as limitações do tempo e do espaço e de nossos sentidos. Hoje existem estudos sérios nessa área, chamados de “projeciologia”, que seria a capacidade que possuímos de projetar nossa consciência para além de nosso corpo físico.

Assim, cada estado de consciência configura uma determinada percepção da realidade, o que confirma o postulado central da Transpessoal, de que a R(f)EC, ou seja, não existe uma realidade-em-si; ela depende do estado de consciência em que nos encontramos.

Como trabalhar operativamente com esses conceitos da Transpessoal?

Na clínica, a Transpessoal possui recursos que possibilitam ajudar o paciente a transcender o estado comum de consciência onde ele se encontra e sofre, porque não vê nenhuma saída. Conduzindo-o até um patamar superior de consciência, ele pode vislumbrar uma outra realidade possível. Do alto os horizontes se alargam. E é possível descobrir saídas e soluções.

Por sua abrangência, a Transpessoal pode ser considerada não somente como um enfoque psicológico ou constituindo mais uma disciplina ou especialidade. Ela é muito mais do que isso, é uma abordagem que, tal como uma ferramenta de trabalho, pode ser usada em qualquer profissão, em qualquer área do saber e por qualquer pessoa. Constitui um conhecimento prático sobre os múltiplos níveis de consciência e de como ativar essa experiência, resgatando ao ser humano uma capacidade intrínseca de vivenciar realidades paralelas.