A
ERA DA CONSCIÊNCIA
Mani Alvarez
A humanidade já passou por muitas
eras no caminho de sua evolução.
Tivemos muitos mitos representando nossos
sonhos. Atualmente presenciamos o desencantamento
do mito da ‘razão científica’,
com seus deuses e avatares ruindo por
terra. Suas promessas de saúde
e felicidade não se cumpriram.
A ciência e a tecnologia cada
vez mais aprimoram seus métodos
para nos manter escravos do consumismo.
Nunca estivemos tão distantes
do sonho de Berthold Brecht, quando
ele disse: “Sustento que a única
finalidade da Ciência está
em diminuir a miséria da existência
humana”.
Se por um lado existem milhares de opções
em riqueza e conforto, existe também
um mal estar generalizado. As pessoas
parecem buscar ansiosamente por algo
que não se vende nos shoppings,
não sai em revistas de publicidade
e talvez nem tenha um nome ainda. Esta
‘coisa’ não é
encontrada nas pratelerias dos supermercados,
não foi descoberta pelos cientistas,
não foi processada pelos laboratórios
farmacêuticos e não está
disponível para o consumo, seja
no varejo, seja no atacado.
Que produto é esse que o capitalismo
ainda não conseguiu enlatar?
O mesmo fenômeno se manifesta
também nos meios universitários.
Embora as pessoas continuem buscando
certezas e garantias nos diplomas e
cursos oficiais, existem pesquisas que
apontam para um fato insólito:
no fundo, muitos já sabem que
o que procuram não será
encontrado em títulos, MBAs,
doutorados ou especializações.
Não, isso não está
também nas pratelerias das bibliotecas.
Estudantes universitários torcem
o nariz: estão saturados de informações
e... infelizes. Mal saem da Universidade
e se deparam com um mundo enlouquecido
pela competição. Em pouco
tempo estão estressados.
Deprimidos. Alguns até infartados.
Não é estranho que todos
procurem por algo que não sabem
sequer o que é? Há uma
ou duas gerações atrás,
tudo se resumia numa questão
de doenças físicas ou
mentais. Médicos ou psicólogos
davam conta. Ás vezes era preciso
chamar o padre ou a benzedeira. Hoje
não. Vivemos uma espécie
de mal estar metafísico. Doença
da alma. Falta um sentido para a vida.
Diante disso a ciência emudece.
A medicina se cala. A psicologia estanca.
Como
uma resposta a esta vida sem significado
ressurgiu, há alguns anos, uma
antiga visão de mundo holística,
sistêmica, integrada, e que tenta
reunir aquilo que esta ciência
desumana e mecanicista separou. Na psicologia
surgem novos métodos, resgatando
os anseios espirituais como fonte de
saúde e equilíbrio psico-emocional
do ser humano. Na física multiplicam-se
descobertas que lançam uma outra
luz sobre a consciência e sua
função de organizadora
da realidade. Estamos iniciando uma
era de convergência planetária,
onde a antiga e milenar sabedoria oriental
se associa à visão racionalista
ocidental, produzindo novas e modernas
conexões.
Como
tudo isso chega até o cidadão
comum, aquele que se nutre do que ídia
oferece? Essa nova visão de mundo,
que já era conhecida e natural
aos nossos antepassados, chegam até
nós como se fossem novidades.
Primeiramente foram as terapias chamadas
“alternativas”. Enquanto
o saber oficial torcia o nariz, as pessoas
buscavam cada vez mais essa medicina
natural, energética, preventiva.
Juntos, surgiram os “naturebas”,
exaltando a alimentação
vegetariana e uma vida mais simples
e saudável. Aos poucos foram
pintando aqui e ali as comunidades auto-sustentáveis,
pregando uma consciência ecológica
e a revolução do pensamento
holístico. Ensinavam, com a sua
poesia visionária, que estamos
todos interconectados com tudo e o que
uma flor arrancada aqui vai provocar
ressonâncias no Japão.
O movimento
“transpessoal” faz parte
desse contexto de renovação
planetária. Iniciado nos Estados
Unidos na década de 60, ganhou
as universidades e centros de pesquisa,
representando um núcleo de convergência
das tradições orientais
(yoga, budismo, sufismo, cabala, etc)
com as mais modernas teorias da ciência
contemporânea (física quântica,
morfogenética, psico-neuro-imunologia,
etc) que estudam a consciência.
Depois de tanto tempo confinada aos
estreitos limites de uma visão
comportamentalista, a psicologia volta
sua atenção a métodos
de expansão da consciência,
à exploração do
potencial da mente, ao desenvolvimento
dos anseios espirituais humanos. A esta
força emergente foi dado o nome
de Transpessoal.
Seu método
ensina como integrar corpo, mente e
emoções numa dimensão
maior e mais abrangente, que é
a espiritualidade. Quando não
existe essa integração,
nossa consciência se polariza
numa dessas funções, e
então nos tornamos ou muito ligados
às sensações físicas,
ou muito emocionais ou excessivamente
mentais. Isto revela um desequilíbrio
e compromete nosso desempenho global.
O tempo
exige menos elucubrações
mentais e mais experiências internas,
mais auto-conhecimento, mais técnicas
transformadoras. Pessoas que passaram
por uma experiência de expansão
da consciência relatam uma profunda
mudança interior, onde ocorrem
mudanças de valores, paz interior
e aumento na capacidade de amar. A vida
se transforma com a emergência
do sagrado em todas as coisas.
Esta é
a grande mudança de paradigma
de nosso tempo. Este é o tempo
da consciência. Surge uma nova
ética, uma ética ecocêntrica,
que vem de oikós – morada
do ser. Não é mais o ego
que está no centro, não
mais o ego-centrismo, mas sim, o eco-centrismo
– lugar onde o Ser faz sua morada.
Artigo
publicado no jornal Zen
02/2007
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