Home
Instituto Humanitatis
Formação em Transpessoal
Curso Introd. Transpessoal
Treinamentos & Workshops
Outros Cursos
Clínica Transpessoal
Depoimentos
Álbum de Fotos
Trabalhos dos Alunos
Viagens Místicas
 
Receba nossa
newsletter gratuita
E-mail:
Indique este Site
Seu Nome: 
Seu E-mail: 
Nome do amigo(a): 
E-mail do amigo(a): 

O Amor Transpessoal

Mani Alvarez

O que é o amor? Porque amamos? Será que o amor faz parte do projeto humano? Se for assim, o que foi feito dele, do amor? Porque, quando olhamos a nossa volta só vemos o desamor, o ódio, a guerra, a discórdia?

Será que sempre foi assim?

Não, foi pior. Quando olhamos para trás, no início da história humana, vemos que o amor tinha um aspecto estranho, que pouco se enquadra naquilo que hoje definimos como amor. Talvez a gente tenha que lançar mão do conceito da psicologia Transpessoal, dos níveis de consciência. Parece que o amor depende do nível de consciência da pessoa. Ou o nível de consciência depende do amor?

Vamos pensar. O amor foi muito importante como fator de mudança e evolução da consciência humana ao longo da história de nossa civilização. Eu diria que, através dos modos de se pensar o amor, foi se constituindo uma nova percepção da realidade e de sociedade humana. Hoje temos uma noção romântica do amor, mas nem sempre foi assim. O que eu quero dizer é que as pessoas que viveram há dois mil, cinco mil, dez mil anos atrás, sentiam o amor de forma diferente da que sentimos hoje. E como é que eu posso saber isso?

Através da arte que nossos antepassados produziram podemos deduzir várias coisas sobre seu modo e concepção de vida. Os mitos são fontes de descobertas. Eles nos relatam de que maneira homens e mulheres se relacionavam entre si. Não há sinal de amor romântico entre os deuses da mitologia; há, sim, uma libido desvairada, sobretudo masculina, que é representada por raptos e perseguições às donzelas, como o de Hades e Perséfone. Mesmo no relato de Tróia, onde a paixão por Helena provoca uma guerra entre povos vizinhos, o que mais se vê são homens abandonando suas mulheres por aventuras bélicas e heróicas. O amor mais fortemente representado é aquele que une mãe e filha, como no mito de Deméter e Perséfone. Ainda assim, temos uma Medéia que mata todos os filhos tomada por um ciúme doentio contra o marido traidor. Poderíamos pensar que naqueles tempos não havia ainda uma consciência consciente do amor.

Platão representa Eros como um forte impulso para o amor ao belo, às formas perfeitas das Idéias. Para ele as Idéias representariam um patamar para o amor à imagem suprema de Deus. Ele dizia que o verdadeiro amor advinha da contemplação do Bom, do Belo e do Verdadeiro. Essa forma de amar era absolutamente deslibidinizada. A libido era reservada para a matéria densa, o amor para Deus. Só muito lentamente a consciência volta-se pesadamente para o amor, primeiramente, para Deus.

Mas, essa forma abstrata de amar deveria custar às pessoas comuns um grande esforço. Não era reservada às pessoas comuns. Não havia ainda um conceito de amor, por isso as pessoas não sabiam amar abstratamente. O amor era uma resposta dos instintos.

Agostinho, o famoso teólogo da Igreja Católica, nos anos 400 de nossa era desenvolve sua teoria sobre o amor. Ele distingue um tipo de amor que chama de “caritas”, ou seja, um amor que vê Deus no próximo, daí a idéia de caridade. Ele dizia que Deus enviou seu Filho para que pudéssemos aprender a amar através de um semelhante. Interessante é que a mulher foi excluída dessa semelhança. Essa forma de amar deu origem a um tipo de relacionamento entre os homens, dentro dos monastérios, quase apaixonada. No filme “O Nome da Rosa” aparece bem visível esse tipo de amor masculino que privilegiava os pares, relegando a mulher a uma vil tentação do demônio, porque trazia de volta a velha libido. Isso durou alguns séculos, chegando até o ano 800.

Aí começa uma nova forma de relacionamento entre os sexos, resgatando à mulher uma função importante. Teve início entre os poetas e trouxe de volta o culto ao feminino. Surgiu um movimento nas cortes que foi chamado de “amor cortês”, e que designava o amor apaixonado e platônico de um cavalheiro por sua dama. Rapidamente alastrou-se pela Europa, sendo mais difundido na Espanha, no sul da França e na Irlanda, onde deu origem ao conhecido mito do Rei Artur e os cavalheiros de Camelot. Na Espanha e sul da França surgiram os poetas bardos, ou trovadores, com seus poemas exaltando a beleza da mulher. Figuras famosas como Leonora de Aquitânia, tornaram-se musas e protetoras dos trovadores. Por volta do ano de 1.100, esse movimento foi dando origem ao culto de Maria, surgindo a mariologia entre os cirtenses. A mulher voltava a ocupar um lugar de destaque nas relações humanas, podendo ser amada platonicamente. O amor ao feminino triunfara, mas a Igreja não perdoaria as mulheres por isso. A Inquisição queimou e destruiu pessoas e obras que exaltavam essa forma de amor. Foram chamados os ‘hereges’, porque ousavam elevar a mulher a um patamar que à Igreja não interessava.

Na Renascença, período histórico onde os homens se descobriram libertos dos dogmas da Igreja e começaram a explorar sua capacidade de raciocínio e inteligência, advém os grandes descobrimentos na ciência, as grandes viagens exploratórias, as descobertas das leis da natureza. A razão triunfante faz com que eles se julguem superiores e o amor se volta para si mesmos, sob a forma de um narcisismo arrogante. A vida nas cortes torna-se uma orgia fantástica. Não existe lugar para o amor na Renascença. Só há libido. Prevalece o amor carnal, egocêntrico, interesseiro.

Foi preciso aparecer um Rousseau (Jean Jacques), por volta de 1.800 nas cortes européias, para recolocar o amor num patamar mais elevado e dar origem ao romantismo que conhecemos tão bem. Ele mostrou que a libido podia estar presente na relação entre marido e mulher, que o amor entre os casais era mais saudável e que a vida familiar era o ideal para a sociedade humana. Ele praticamente ensinou as pessoas a amar o amor.

Chamo a atenção para um fenômeno tipicamente humano. Nós não temos consciência de algo até que ele é nomeado e passa a significar algo para nós. Isso aconteceu com o amor e acontece com tudo na vida. O mundo que conhecemos nos foi ensinado através de palavras, até que pudéssemos vê-lo. Essa é a função da educação. Nós não somos dirigidos pelos instintos como os animais. Somos seres de linguagem e tudo que sabemos hoje teve de ser ensinado um dia, e tem de recomeçar a cada nova criança que nasce.

Esta foi a função educadora de Rousseau. Ele nos ensinou uma nova forma de amar: o amor romântico. E assim chegamos ao nosso tempo, no alvorecer do século XXI. O amor romântico teve seu auge na vida de nossos avós, quando a arte, a música, a poesia, tudo era voltado para cantar o encontro amoroso entre homem e mulher. A nostalgia da música clássica foi o escoadouro de muitas catarses pessoais. A música cantava também o desencontro e as tragédias amorosas. Mas, também essa forma de amar entrou em decadência. Segundo uma análise feita pelo psicanalista Jurandir Freire, a partir da contracultura, por volta dos anos 60, o romantismo não sobreviveu à revolução cultural, sexual, dos costumes. A emancipação feminina, segundo ele, foi o gatilho que detonou a queda do amor romântico. Nossa libertação foi a grande vilã da história!

A mulher de hoje se recusa a chorar pelos cantos, como o faziam nossas mães e avós, enquanto o maridão se diverte com as outras fora de casa. Direitos iguais. Isso trouxe à tona algo que nós, mulheres, ainda não digerimos muito bem. Parece que o amor romântico é uma forma mais feminina de relacionamento. O homem lida melhor com a libido desvinculada do amor, a mulher não. Por mais que a mulher reivindique direitos iguais no sexo, ainda existe muita insatisfação. Clinicamente, a maior queixa é esse desencontro radical: enquanto os homens se perguntam -- afinal de contas o que mais ela quer? -- as mulheres reclamam a atenção, o cuidado, a intimidade, o aconchego, a delicadeza que só o amor romântico pode dar, e que parece ter sido perdido ou ter se tornado meio ‘demodé’ nos dias de hoje.

Enquanto isso, o consumismo capitalista fatura alto com a insatisfação: alguns, libertos da busca do amor romântico, se entregam a uma nova forma de prazer libidinal que vem, agora, não mais das mulheres, mas de algo bem concreto: o deus capital, com seus prazeres imediatos, seu jogo político, suas poderosas e fálicas máquinas de guerra. O sexo se tornou um ganho fácil e substituiu o desejo de amor.

As mulheres, por sua vez, se culpam por não conseguir inspirar o amor romântico nos homens e atribuem o seu fracasso ao fato de não ter o corpo de uma Gisele Bundchen, de uma Adriane Galisteu, e gastam fortunas com novos produtos de maquiagem e usam seu tempo livre para malhar em academias na esperança de um dia, quem sabe... serem amadas.

Mas, e o amor, o que foi feito dele? Será um projeto impossível, o amor?

O desamor é um sintoma muito grave de nossa cultura. Muito mais do que imaginamos. Revendo outro dia o filme Matrix, percebi uma coisa muito interessante; apesar de toda sua tecnologia informática, suas máquinas de guerra mental, suas armas sofisticadas, ele é um filme de amor. Observem: o que faz com que Neo salve Morpheus na hora do perigo mortal? Seu amor por aquele homem que, sem conhecê-lo, já o amava. O amor de Morpheus por ele o transformou num Escolhido. O que significa isso? Há uma passagem em que Neo pergunta a mulher-Oráculo o que é ser um Escolhido? Ela diz: Ser Escolhido é como estar apaixonado. Ninguém diz isso para você. Você sabe. E não tem dúvida nenhuma.

Saber-se um Escolhido nos torna melhores. Poderosos. Imortais. Quando um pai abençoa seu filho, reconhecendo-o, ele está dizendo que é um Escolhido. É o mesmo que se sentir amado. Aceito.

No final do filme, quando Neo estava agonizando no chão, crivado de balas por todo o corpo, Trinity sussurra ao seu ouvido, na nave mãe, palavras de amor que vão diretamente à sua mente e lhe dão forças para resistir a tudo. E como se fosse um milagre, ele volta à vida.

Estamos começando a entrar no espírito do amor transpessoal. Ele é muito maior do que o amor romântico. Enquanto esse ainda se satisfaz com o relacinamento íntimo e dual, o outro se estende a tudo e a todos, de forma generosa e incondicional.

No mito, temos o amor da Grande Mãe, que é possessivo e devorador. Muitas mães ainda se deixam tomar por esse tipo de amor, primitivo e pouco evoluído. No início da civilização, a consciência não conhecia outra forma de amor. Mas, milhares de anos se passaram. Nós sofremos, morremos, matamos, cometemos tantas atrocidades em nome desse amor primitivo.

Maria, mãe de Jesus, foi o simbolo de uma nova forma materna de amar, deixando seu filho seguir sua missão, mesmo sabendo que com isso ia perdê-lo. Com o coração despedaçado, ela respeitou sua decisão. Com isso criou um novo mito, o da deusa Sophia, a mãe da sabedoria, que é a que nos rege hoje. O amor Transpessoal é o amor ensinado pela deusa Sophia, o amor sem fronteiras, sem ego, sem individualidade e, portanto, desinteressado, generoso e incondicional.

Os mitos também evoluem. Da Grande Mãe da antiguidade, as deusas mitológicas foram adquirindo atributos que iam inspirar a consciência da humanidade em sua evolução. A nossa sobrevivência, hoje, depende muito dessa consciência, pois é desse amor que irá surgir uma nova sociedade na Terra, respeitando o meio ambiente e equilibrando as desigualdades sociais. Isto é um trabalho para pessoas imbuídas do amor Transpessoal.

Esta nova consciência que surge nos coloca diante do amor como quem se coloca diante do banquete de ofertas que existem em nossa sociedade hoje: consumir ou comungar? O consumismo é uma compulsividade de nosso tempo, existem milhares de objetos de consumo para preencher nossa falta de sentido na vida. Mas, a questão diante de tudo isso, é: consumir ou comungar?

Quando a bomba atômica explodiu em Hiroshima e Nagasaki, seu descobridor, o físico Operhaimaer quase enlouqueceu. Ele era um homem sensível e se deu conta do que aconteceu com ele, da sua participação naquela tragédia e foi então que disse uma frase que se tornou célebre: “ O pior inimigo da humanidade é o cientista alienado”.

Eu acho que nós podemos estender essa frase muito mais. O pior perigo é o educador alienado, é o político alienado, é o terapeuta alienado, é o sacerdote alienado, é o empresário alienado, é a mulher e o cidadão alienados... ou seja, é aquela pessoa que se deixa levar pelas circunstâncias, aquela que apenas ‘consome’, sem pensar no que estão fazendo com ela.

Vocês conhecem aquela história dos dois pedreiros que estavam construindo uma parede? Um deles estava zangado, mal humorado, com um péssimo astral; o outro trabalhava cantarolando, sorridente e feliz. Alguém que passava perguntou ao primeiro: O que você está fazendo? Ele olhou feio e respondeu: Não está vendo? Estou construindo um maldito muro para ganhar um maldito salário! Então o homem se dirigiu ao segundo pedreiro e fez a mesma pergunta: Ele respondeu simplesmente: Eu estou construindo uma Catedral.

É isso que o amor Transpessoal faz com a gente. Ele nos faz sentir como se estivéssemos construindo uma Catedral. Segundo um grande mestre do passado, o amor é a tecnologia mais sofisticada de todos os tempos. Existem 4 palavras gregas que se referem a isto. Uma é PORNÉIA, da qual derivou ‘pornografia’; um arremedo do amor. É o amor do consumo, da libido, é a barganha, toma-lá-da-cá que não sacia a fome, a sede nem a carência. Porque existe esse termo ‘comer o outro?’ Esse é o primeiro estágio do aprendizado do amor.

O segundo termo é EROS, o amor psíquico, o amor-desejo, é a busca da felicidade. O outro é aquele que vai proporcionar isto, portanto, precisa ser bem cuidado. É o estágio da adolescência do amor.

O terceiro termo é FILIA, o amor lúcido, o amor da consciência, daí vem a filosofia (amor ao saber) a filantropia (o amor ao ser). É aquele sentimento que nos impele em direção ao outro não para consumi-lo, não para pedir alguma coisa, mas para compartilhar alguma coisa com ele, uma missão, uma aventura, um ideal. Esta é a fase da maturidade do amor.

E a 4ª palavra é aquela que os gregos chamavam AGAPE, o amor incondicional, o amor que aprendeu a doar-se por inteiro sem pedir nada em troca, o amor transpessoal. Quando aprendemos essa forma de amar, estamos preparados para receber um Certificado de Humanos, portanto, o que você doa de si é a sua humanidade. Você está muito além da individualidade, do egocentrismo, do interesse pessoal, você ama como o Cristo, como o Buda, e vai descobrir que nada mais pode ser tomado de você, porque a única coisa que possuímos de verdade é aquilo que doamos.

Dizia RABINDRANATH TAGORE: Eu dormia e sonhava que a vida era alegria. Eu despertei e me dei conta de que a vida é servir. Eu servi e aprendi que o serviço é alegria.

Esse é o caminho que nos leva para o aprendizado do Humano, o amor transpessoal. Um amor que não consome, e sim, comunga.


Palestra apresentada no GEA – GRUPO DE ESTUDOS SOBRE O AMOR - 06 / 2007