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Endorfinas e Êxtase

Dr. Jacques Vigne *
Tradução: Dr. Geraldino Alves Ferreira Netto

Será que as endorfinas permitem explicar o bem-estar experimentado na meditação? Se, por uma prática precisa, podemos fabricar nossa própria morfina no interior do corpo, não será isto uma garantia de autonomia em relação a todas as formas de dependência, desde a droga e o álcool até esta dependência fundamental que consiste em buscar a felicidade no exterior, quando ela já está aí, presente em nós?

Para ir direto ao assunto, podemos dizer em geral que as endorfinas não são a nova panacéia universal, e que não faremos delas as “pílulas do êxtase” que alguns talvez esperem; mas que sua descoberta em nosso organismo, desde uma quinzena de anos, abre novas perspectivas sobre a ligação corpo-espírito, com consequências indiretas sobre a compreensão do modo de ação da meditação.

O que entendemos por endorfinas? São peptídeos, isto é, curtas cadeias de ácidos aminos; qualificamo-os de “opióides”, porque têm uma ação semelhante à do ópio e da morfina. Foram descobertas por J. Hugues em 1975. São fabricadas ao nível da hipófise e localmente na junção entre os neurônios; elas podem, pelo menos a beta-endorfina, passar para a circulação geral e ser dosadas. Encontramos receptores de endorfinas também na pele, nos intestinos, o coração e outros órgãos. Para saber se uma ação fisiológica, por exemplo, uma anestesia, é mediada pelas endorfinas, aplicamos no sujeito um antagonista das morfinas, em geral o Naloxone. Se cessar a anestesia, isto significa que ela era devida às endorfinas. Demonstrou-se assim que a anestesia por acupuntura era mediada em parte pelas endorfinas. Provou-se também o papel das endorfinas em múltiplas situações, sendo a situação típica o esforço positivo de plena capacidade.

Entre os 430 artigos sobre as endorfinas , cuja lista consultei na Biblioteca Central da Escola de Medicina em Paris, não encontrei nenhum que falasse explicitamente sobre meditação, não sendo este um assunto de estudo prioritário nas equipes de pesquisa. Entretanto, um estudo do Dr. Levine, da Universidade da Califórnia, pode estar ligado indiretamente à meditação: Levine mostrou que as endorfinas mediavam o efeito placebo, isto é, os pacientes que suprimem sua própria dor, acreditando ter recebido um medicamento eficaz, fazem isto por intermédio das endorfinas. Se lhes aplicamos o Naloxone, o efeito placebo é suprimido, e os pacientes voltam a sentir dor. O efeito placebo é um exemplo particular de auto-sugestão, método este que podemos relacionar, sem dificuldade, a várias formas de meditação, mesmo se estas últimas não são redutíveis exclusivamente a uma auto-sugestão. Além disso, há uma relação entre a concentração do prana, o fluxo de energia que concentramos espontaneamente ou sistematicamente em algumas partes do corpo, e a estimulação através de agulhas de acupuntura; ora, vimos que a ação desta se faz em parte pelo intermédio das endorfinas. Portanto, não é absurdo falar da ligação entre meditação e endorfinas, embora só possamos desejar ter uma confirmação experimental direta disto num futuro próximo. Para descrever mais precisamente a ação das endorfinas sobre o corpo, tomemos o caso da beta-endorfina que é segregada em caso de exercício esportivo praticado com 80% ou mais da capacidade máxima do sujeito.

A secreção das endorfinas atinge o máximo em um minuto, e parece influenciada , além do esforço, também por fatores psicológicos. Ela permanece num platô durante quinze minutos, para se apagar em 45 minutos. As endorfinas parecem ter a função de produzir uma euforia, um esquecimento da dor que permite aos sujeitos de se ultrapassar. Estes se implicam na euforia do combate que permite a cada um, cujo braço, por exemplo, foi arrancado por um obus, de continuar a atirar com o outro braço. Elas favorecem a resistência ao frio e certamente estão presentes nas façanhas dos iogues que vivem com pouca roupa no grande Himalaia. Elas aumentam durante o parto, permitindo às mães o enfrentamento das dores. As mulheres que tiveram o hábito do exercício esportivo, durante a gravidez, a saber, que têm o hábito de produzir suas próprias endorfinas, têm uma taxa mais elevada dela no sangue, no momento do parto, e suportam melhor as contrações do que as mulheres que não se exercitaram.

As endorfinas aumentam a glicemia e a palatabilidade, isto é, o prazer de comer os alimentos. Estes dois elementos contribuem, sem dúvida, à sensação global de euforia. Fato interessante para os meditantes: as endorfinas atingem seu ponto máximo às seis horas da manhã; a experiência da meditação, portanto, arrisca de ser mais gratificante neste horário, por menos que se tenha dormido suficientemente, e as dores decorrentes da imobilidade da postura podem ser mais bem suportadas. Por outro lado, as endorfinas diminuem nos pacientes com artrite. Ora, os efeitos do pensamento positivo para ajudar a cura da artrite são conhecidos. Relacionando estes dois fatos, não é proibido pensar que as endorfinas são um neuro-transmissor atuante na melhora, e até mesmo na cura da artrite. Não devemos, entretanto, fazer das endorfinas uma substância miraculosa. Elas inibem o ritmo dos hormônios sexuais, e podem induzir um atraso na chegada das regras e da puberdade nas adolescentes que praticam intensivamente o esporte. Além disso, elas provocam uma inibição das defesas imunológicas quando em quantidade exagerada no sangue, por exemplo, na meia hora depois do esforço; elas podem também fazer esquecer os próprios limites e provocar acidentes.

A parada do mental: endorfinas, droga e êxtase

As endorfinas são opiáceos: estes têm propriedades “estupefacientes”. Aliás, a palavra “estupefação” aparece freqüentemente no vocabulário dos místicos. Em comum, há uma suspensão do mental. Do mesmo modo, a embriaguês, a intoxicação podem ser divinas. Os sufis, particularmente Omar Khayyam, levaram bastante longe a analogia. O álcool dá uma certa sensibilidade e permite-nos ter uma consciência relativamente desligada do corpo.
Além disso, sabemos que, por uma sucessão de reações biológicas, o álcool acaba agindo nos mesmos receptores que as endorfinas. Isto pode se comparar ao fato de que, nos alcoólatras, as endorfinas são baixas: elas não necessitam mais ser sintetizadas, já que o álcool toma seu lugar. Este baixo nível poderia explicar o caráter penoso, doloroso do estado de ausência no alcoólatra, que faz lembrar o estado de ausência no heroinômano. Os opiáceos provocam a estupefação, a suspensão do mental, entre outras coisas, pelo bloqueio das sensações dolorosas; estas estão na base de uma agitação constante do mental ordinário, que se defende permanentemente contra tal ou tal pequeno incômodo de dor. Além disso, eles paralisam a motricidade intestinal, que é provavelmente ligada à sensação de mal-estar, quando ela está acelerada (diarréia, estresse) e a uma sensação de bem-estar quando ela está diminuída ou vagarosa. A verdadeira parada do mental não é só uma parada da tagarelice e da fabricação de imagens interior: ela está ligada a uma parada do movimento interno das sensações, o que para os iogues corresponde ao samadhi. Esta parada provoca uma felicidade intensa, muito além das felicidades habituais; mesmo uma suspensão parcial do mental proporciona uma experiência de felicidade além do ordinário.
Quando encaramos as coisas muna perspectiva suficientemente ampla, seria errôneo dizer que o êxtase é uma forma de experiência de droga sublimada. Muito pelo contrário: o drogado desvia a experiência de si, da qual teve um reflexo a partir do uso de tóxicos; a felicidade que provou aí faz com que procure reencontrá-la por todos os meios, mesmo que ele deva, no fim das contas, pagar caro por isso.

Ao contrário da droga, o início da meditação é difícil; ele exige uma disciplina para aprisionar seu mental, sua atenção. É preciso pagar o preço no início, mas, depois, o fato de ter mesmo só um ante-gosto da experiência de parada do mental é suficiente para recompensar seus esforços e ter vontade de continuar. Os testemunhos tradicionais convergem em torno desta experiência: no início dos Yoga sutras de Patanjali, a definição de ioga é célebre: citta-nirodha, parada do mental. Nisargadatta Maharaj fala até de abandonar o sentimento de “eu sou”, e compara concretamente o samadhi à água fervida que descansa: não só ela é imóvel, mas os germes dos desejos egoístas que existiam nela foram mortos. Por outro lado, diz ele: “O conhecimento não tem necessidade de paz e de quietude, porque ele é, em si mesmo, paz e quietude. Neste princípio da quietude fundamental, sem dualidade, não há mudança, qualquer que seja o momento”.

No budismo, o termo nirvana – suspensão – fala por si; todos os que tenham a mínima experiência espiritual compreenderão todo o potencial positivo de liberdade e de felicidade interior que esta palavra evoca. O zen é fundado sobre mu – vacuidade. O mestre Eckhart exprime esta experiência de parada do mental de diversas maneiras, entre outras, por ocasião de um sermão sobre a Beatitude da pobreza: “Aqui, nesta pobreza (de nada possuir), o homem reencontra o ser eterno que ele foi, que ele é agora e que continuará sempre”.

Com os Padres do deserto e os monges gregos, a hésychia - a quietude – tem o primeiro lugar, bastando algumas citações para percebê-lo: Saint Nil recomenda “agarrar-se ao chefe de fila de todos os trabalhos, a hésychia, que mostra a contemplação das virtudes, dotada de múltiplos olhos”... O monge deve ter “sede da hésychia deificante”. Para ele, o silêncio é uma panacéia: “não existe preocupação que não possa ser vencida pelo silêncio. A Deus, ele-mesmo, o silêncio te unirá...” “Muitas pessoas correm, para encontrar, mas não há um único que encontra, exceto aquele que mantém o silêncio continuamente”.

Não devemos confundir esta grande experiência com um estágio intermediário de meditação associado a um prazer intenso; é um encorajamento, mas pode dar lugar a uma espécie de acostumar-se, e devemos estar preparados a ultrapassá-lo para ir mais longe. Ramakrishna dizia a seus discípulos, tão completamente fascinados por ele que não podiam se impedir de voltar todos os dias, na mesma hora, para visitá-lo: “Vocês são como os pavões aos quais se dá todo dia, na mesma hora, uma pílula de ópio. Pode-se estar seguro de que, depois de certo tempo, eles serão obrigados a vir a este encontro”.

É função do Mestre espiritual comunicar uma experiência de alegria fora do comum que dê ao discípulo desejo de seguir mais longe em sua própria prática. Num estudo feito nos anos 70, nos Estados Unidos, com dois mil sujeitos que iniciaram a prática da meditação, durante dois anos, a porcentagem de usuários de droga diminuiu significativamente. No início, 80% dos sujeitos usavam a maconha e, ao fim de dois anos, esta taxa desceu a 20%. Para o LSD, a porcentagem de intoxicados passava de 60% a 5%, e para as anfetaminas, de 35% a 5%. O fato de que se possa sentir bem por si mesmo, sem a ajuda de nenhum produto exterior, me parece importante de dizer e repetir, do ponto de vista médico como do ponto de vista espiritual, e isso, sobretudo, para um público francês, quando sabemos que batemos os recordes de consumo de vinho e de tranqüilizantes por habitante...

Pesquisa em fisiologia e experiência tradicional

Se um fato de experiência tradicional é corroborado pela pesquisa em fisiologia, tanto melhor. Isto ajudará os principiantes que só acreditam na ciência a se interessarem pelo saber tradicional. Mas não tenhamos ilusões: o principio básico da tradição é a experiência pessoal, e dificilmente escaparemos desta lei. Assim não haverá milagre enquanto as pessoas não começarem a praticar, mesmo se conseguirmos provar cientificamente que a meditação pode produzir endorfinas euforizantes, alem dos efeitos anti-estresse já conhecidos. É mais do que provado cientificamente que o cigarro e o álcool são prejudiciais se usados em excesso, mas quantas pessoas fazem semblante de não sabê-lo, para continuar a se intoxicar!

Mesmo que consigamos fabricar, a partir das endorfinas, pílulas milagrosas, “euforias”, isso em nada mudaria no problema básico: por quais razões vamos mal, qual é o porque e o como de nosso sofrimento, como podemos agir em suas causas? Os processos de consciência que levam à experiência de meditação são, no fundo, mais importantes que as próprias experiências: estas aqui passam, mas aquilo que compreendemos para chegar lá, isto fica. O acordar se faz em nós mesmos e por nós mesmos: por exemplo, é ainda por nós mesmos que podemos melhor encontrar um antídoto a um neuro-peptídeo cuja ação é muito difundida entre os meditantes, sobretudo de manhã cedo e tarde da noite: “a endormina”!... Seria exagero fazer das endorfinas uma espécie de veículo onipotente do pensamento positivo, mesmo se conseguíssemos confirmar a ligação entre os dois.

Certamente que os Simonton curam os cânceres fazendo os pacientes visualizar os leucócitos que comem as células malignas. Porque, então, não se servir das endorfinas para concretizar um pensamento positivo? Tanto melhor se isto funciona, mas é preciso saber que ficamos no nível de um truque de visualização, e que as realidades neuro-químicas são mais complexas e mais contraditórias do que isto. Do ponto de vista da ioga, os fenômenos neurofisiológicos são só correlativos, consequências do que se passa num outro nível. Nós somos inconscientemente herdeiros do pensamento mecanicista dos químicos do século XIX. A vida, o espírito se reduziriam a um conjunto de reações químicas; mas, neste fim de século XX, retorna ao primeiro plano, por caminhos variados, a noção de que o homem está ligado àquilo que o envolve, ao poder cósmico, ao “campo unificado”, poderíamos dizer, para não entrar muito em particularidades culturais.

O fato de estarmos numa situação de intenso estresse e de termos, de repente, uma força insuspeitável para ultrapassá-la, é para o iogue o sinal da intervenção de um “outro” poder, e pouco importa que o chamemos de poder do Outro ou da kundalini, ou que o façamos surgir de cima ou de baixo. O fato de se saber ou não que este fenômeno pode ser correlato a tal ou tal neuromediador não impede de que seja compreendido ou utilizado. Na Índia, encontramos numerosos exemplos de gurus que colocam intencionalmente seus discípulos em situações extremas, para deslanchar neles o despertar de uma energia adormecida. No zen, o ritmo sustentado e prolongado dos sesshins permite igualmente este ultrapassamento de si mesmo. Entre os monges cristãos, pode-se comparar com este processo a ascese de Silouane du Mont-Athos: “Manter-se no inferno e não desesperar”.

O risco de tais métodos fortes, se mal indicados, é de criar um mal estar que nem mesmo a lembrança de uma eventual euforia das endorfinas conseguirá dissipar. Para dar um outro exemplo da prudência necessária da aproximação de elementos de pesquisa científica com experiências tradicionais, pode-se falar da ligação entre meditação e hemisfério direito, ligação que só parcialmente se justifica. É o que mostra um artigo de J.B. Earle, que tinha feito na época uma síntese de uma centena de publicações sobre o assunto. A idéia inicial era lógica: se a meditação procurava inibir o mental, verbal, racional (hemisfério esquerdo), e estimular as capacidades intuitivas (hemisfério direito), deveríamos observar uma certa predominância direita, pelo menos durante e logo depois da meditação. Certamente, o hemisfério direito está fisiologicamente ligado à atenção sustentada e à produção de imagens mentais. Constata-se que ele é estimulado nos iniciantes em meditação, enquanto que o hemisfério esquerdo é inibido.

Isso corresponde, sem dúvida, ao fato de que o iniciante se esforça para fazer calar a tagarelice mental, e se encontra invadido por um afluxo de imagens mentais que ele não consegue ainda controlar. Mas, á medida que o meditante progride, não é mais a excitação do hemisfério direito que é característica, mas uma maior sincronicidade intra e inter-hemisférica das ondas registradas no eletroencefalograma. Estas ondas são em fase, o que é provavelmente relacionado a um deslizamento da atividade principal do cérebro do córtex para regiões subcorticais; o experienciado do sujeito seria então um sentimento de unidade, de “vacuidade da consciência”. Retornamos a esta experiência fundamental do além do mental, ou de sua parada, o que significa a mesma coisa. Testemunha disto é esta história zen, para terminar:

Um dia em que o mestre Yao-shan Wei-yen estava sentado tranqüilamente com as pernas cruzadas, um monge chega e lhe diz:

- “Em que você está pensando imobilizado?
- Eu penso naquilo que está além do pensamento.
- Como você faz para pensar o que está além do pensamento?
- Não pensando”.


Conférences, Stages et Méditations
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