Prof. AK Mukhopadhyay, AIIMS, Delhi
Tradução do inglês: Dr. Jacques Vigne
Tradução do francês: Dr. Geraldino Alves Ferreira Netto
AK Mukhopadhyay é professor de biologia médica no Instituto All Índia de Ciência Médica em Delhi. Trata-se do maior Centro Hospitalar Universitário da Índia. É também discípulo de um conhecido sábio de Bengala, Swâmî Swarupânanda, que ensinava o Vedanta, sendo também influenciado por Shrî Aurobindo. Há mais de vinte anos, interessa-se pelas fronteiras da ciência, sobretudo pela relação entre o cérebro e a espiritualidade. Desenvolveu a noção de consciência supracortical, que postula a evolução ternária do cérebro a partir do tronco cerebral, do cérebro límbico, e do córtex com sua subdivisão de subcórtex e de córtex superficial. Participou de numerosas conferências internacionais e tem relação com os pesquisadores que pretendem ir além do cérebro.
Aliás, eu traduzi no começo deste artigo algumas reflexões que ele fez a propósito do terceiro congresso sobre o assunto, em Cambridge, em 1999. Embora não tendo a priori nada a ver com o catolicismo, ele foi convidado como observador no Vaticano, para uma reunião de reflexão sobre ciência e religião.
A Índia foi sempre conhecida pela profundidade de sua espiritualidade, mas, neste início do século XXI, em que ela se afirma nos domínios científicos e na indústria farmacêutica, era de se esperar que ela comece a marcar sua participação nas pesquisas de psicologia, inclusive de fisiologia transpessoal, especialmente com relação ao cérebro. Por exemplo, nos textos que traduzimos a seguir, Mukhopadhyay evoca a maneira como os neurônios do cérebro são reorganizados num praticante espiritual para realmente formar um novo núcleo que ele chama de centro de integração biológica, e que corresponde mais ou menos ao Sahasrara, o lótus de mil pétalas do Yoga. Apresenta argumentos muito precisos àquilo que poderia passar, à primeira vista, por ficção científica.
Encontrei o Prof. Mukhopadhyay inicialmente num congresso internacional sobre “psicoterapia e Yoga”, em Hadwar, em dezembro de 2005 e, duas ou três semanas depois, em seu laboratório em Delhi. Não pude deixar de admirar a maneira como ele concilia uma carreira científica de alto nível e uma pesquisa transpessoal. Partilho esta opinião com Bettina Baeumer, especialista em Shivaísmo da Caxemira, dos Upanishads, e antiga colaboradora de Lílian Silburn, que me apresentou o Professor na reunião de Hardwar. Como se diz familiarmente, há pessoas que têm fé, e AK Mukhopadhyay é uma delas.
Além do Cérebro
Depois de resumir os estudos sobre ciência e consciência no domínio do cérebro, Mukhopadhyay instiga a levar a pesquisa mais longe:
“A despeito de todos esses esforços meritórios, os cientistas ficam desconcertados sobre a verdadeira finalidade deste cérebro como órgão! Sua evolução terminou, ou continua? O objetivo da evolução de outros órgãos como os ossos, músculos, pulmões, fígado ou rins é bem conhecido no espectro inteiro da filogênese, e também na escala da ontogênese. O conhecimento de sua finalidade é quase completo. Pelo contrário, a despeito da quantidade de conhecimentos sobre o modo de funcionamento do cérebro, os cientistas de hoje não têm resposta final sobre a questão do propósito da evolução deste mesmo cérebro! Sir John C. Eccles (ganhador do Prêmio Nobel por suas pesquisas sobre cérebro e consciência, a quem AK Mukhopadhyay apresentou suas próprias idéias. Nota do Tradutor) equivocou-se provavelmente quando disse que a evolução do cérebro humano tinha atingido seu ponto final. Em sua opinião, nenhum neurocientista disse uma única palavra para negar esta afirmação. É também verdade que a maioria destes pesquisadores estão comprometidos com a tarefa de explorar o crescimento do cérebro no plano horizontal. Ninguém considerou seriamente o potencial de crescimento vertical deste órgão. Nunca ouvimos ninguém colocar seriamente a questão, nos fóruns científicos, daquilo que existe verticalmente na seqüência da tríade: cérebro reptiliano, mamífero e humano. Até então, ninguém havia considerado que o desenvolvimento de um novo cérebro pudesse ser o resultado de uma neuropoiese (fabricação de neurônios) a partir das células-tronco da “medula do cérebro” (existem células-tronco no cérebro como na medula, situadas logo abaixo do epitélio dos ventrículos laterais. Elas são responsáveis pela fabricação de novos neurônios, mesmo no homem adulto, descoberta que revolucionou os conceitos da neurologia no fim do século XX. Demonstrou-se, por exemplo, que os taxistas londrinos podiam desenvolver, em volume, seu centro de orientação no espaço do qual se servem todo dia para encontrar uma rua ou outra, da mesma forma que um esportista desenvolve a dimensão de seus músculos através do treinamento. Nota do tradutor).
O cérebro é a última fronteira de nossa ignorância. Esta ignorância atual é o reflexo da ignorância da finalidade da evolução do cérebro enquanto órgão. Isso ilustra bem a necessidade quase absoluta de ter uma conferência como esta, cujo título seja “além do cérebro”. É útil também estender o convite para a participação dos neurocientistas, para que eles desenvolvam boa vontade para penetrar, com um cuidado honesto, as coisas mais profundamente, descobrir suas raízes metafísicas, expandir sua ontologia e epistemologia atuais, alargar sua capacidade de imaginação e, enfim, se abrirem para explorar a consciência...
Além do cérebro! Que significa isso? Quer dizer ir além do cérebro? Transcendência do cérebro? A negação total da existência do cérebro? Quem é Aquele que viaja através do cérebro? Será que ele mora no interior do cérebro e não quer sair de sua casa?... Somos pegos em certos paradoxos incontornáveis. Exploramos um domínio além do cérebro, mas com o próprio cérebro! E percebemos um domínio além do cérebro, com o cérebro! Sendo assim, este cérebro não pode ser ignorado, nem deixado de lado ou para trás. O cérebro não é material. Portanto, “além do cérebro” não significa além do material. O cérebro, ele mesmo, está além do material. Ele consiste de um reagrupamento organizado de 100 bilhões de neurônios vivos, acompanhados de 700 ou 800 bilhões de células de apoio (glias), que os alimentam através de um leito vascular consideravelmente desenvolvido, que garante as trocas de substâncias químicas e dos gases. As células aí são todas conscientes, comunicando-se através de uma rede elaborada de sinapses, cujas atividades, na maioria dos casos, se efetuam ao nível quântico. Além do cérebro, portanto, não significa ir além do mundo quântico. É o próprio cérebro que está além do mundo quântico. Ele utiliza a mecânica quântica para as comunicações cotidianas entre as partes constituintes. 100 bilhões de neurônios comunicam-se através de uma rede elaborada de sinapses, cujas atividades se passam a nível quântico. Enquanto célula, o neurônio individual segue as leis dos fenômenos quânticos nestas diferentes subestruturas (por exemplo, os microtúbulos, o sistema de conexão pela biocondutividade, entre os tecidos extracelulares de conexão, as junções de célula com célula, os receptores integrados das membranas celulares). [Mukhopadhyay faz, a propósito disto, uma série de referências de artigos em inglês].
O que significa além do cérebro? O cérebro manifestou biologicamente as mecânicas clássica e quântica, utilizando-as para os seus próprios fins. Entretanto, é certo que o cérebro sofre e não pode conservar sua integridade, quando confrontado com a morte. Ele certamente tem uma eficácia para administrar e tornar biologicamente significante o mundo quântico, mas, por outro lado, ele é totalmente ingênuo para encarar a mecânica deste fenômeno elementar que é a morte. Entretanto, o cérebro parece ter um desejo intenso de adquirir esta capacidade.”
O cérebro do cérebro, ou o centro de integração biológica.
O Centro de Integração Biológica (CIB) é uma entidade neurológica visualizada por Mukhopadhyay no praticante espiritual evoluído. Corresponde mais ou menos ao sahasrara chakra, o lótus de mil pétalas. Eis como ele apresenta sua hipótese de trabalho:
“Enquanto o ser humano se prepara para fazer o salto em direção ao patamar superior, pode-se confiar que as células supracorticais, que até aqui mantiveram suas aspirações pela Essência (da qual muitos universos saíram, e na qual muitos outros entraram) sairão da posição e tomarão a responsabilidade do movimento. A realização biológica desta essência inter-universal, enquanto consciência supracortical representada no início por algumas células neocorticais, marca o início de um desenvolvimento de um novo centro acima do córtex.
O que permitirá o Novo cérebro.
Uma possibilidade não descartável é que as células-tronco, destinadas a constituir este novo centro, provenham da região paraventricular. Elas são determinadas a preservar sua originalidade, a despeito das metamorfoses causadas por uma viagem tão árdua. Seu movimento em direção à parte mais alta do novo cérebro parece ser a conseqüência de um grande desígnio para unir a Origem a Eros.
Este centro, para começar, pode ser iniciado por alguns neurônios individuais que se consagram a esta tarefa. Muitos outros certamente se juntarão à sua rede após uma passagem bem sucedida pelos túneis fenomenológicos. (Por analogia com a física quântica, é a maneira como Mukhopadhyay evoca as transformações profundas, psíquicas e cerebrais causadas pelas grandes experiências da vida, a pulsão sexual, o amor, o ego, a morte. Nota do Tradutor). A capacidade organizadora da experiência dará forma ao cérebro para que ele se inscreva num esquema de manifestação que tenha um objetivo. O novo cérebro tem a responsabilidade de transformar todo o neuro-eixo (desde o tronco cerebral até o córtex, passando pela região límbica). Podemos, portanto, considerar a formação do “Cérebro do cérebro” como uma etapa triunfal para o processo de evolução biológica e fisiológica. Quando este centro de integração biológica estiver constituído, haverá uma sincronização dos cérebros direito e esquerdo, e uma harmonização dos três estágios do cérebro, réptil, mamífero e humano...
Assim, o Novo cérebro, que se desenvolverá no vértice do córtex atual, poderá gerir a sutilidade de novos domínios da consciência e estabelecer uma relação entre as consciências universais e interuniversais. (Mukhopadhyay segue a opinião da física moderna e também da tradição da Índia, segundo a qual existe um grande número de universos que funcionam em paralelo, o que ele chama de multiversalidade. Nota do Tradutor). Do mesmo modo como Paul Ehrlich comprovou que um medicamento não pode tornar-se ativo antes de estar fixado, isto é, ligado a um receptor, assim podemos mencionar agora que a essência interuniversal onipresente e onipotente (os espiritualistas a denominam de Graça de Deus) não pode agir antes que o ser humano desenvolva para ela um receptor no cérebro. O cérebro do cérebro tem esta função de receptor, de site capaz de se ligar a esta essência interuniversal.
A posse deste cérebro é a causa da profundidade e da serenidade que se observa no verdadeiro gênio (espiritual), em oposição à evanescência e ao falso brilhante que vemos na expressão dos gigantes intelectuais. A posse deste centro, mesmo nos estágios elementares de formação e desenvolvimento, aparelha o verdadeiro místico com a capacidade de “atravessar a nado” estados de consciência diferentes e variados, nos quais um esquizofrênico ou maníaco provavelmente se afogariam. A presença deste centro é responsável pela transformação de um sujeito, exposto a ser vítima de uma síndrome de personalidades múltiplas, em uma personalidade com várias facetas, devidamente integradas umas nas outras. É o centro que integra a consciência horizontal, vertical e oceânica no cérebro humano. E é um centro que elimina também os preconceitos hemisféricos”, (que fazem com que se veja o mundo com os “óculos” do cérebro direito diferentemente do que com os do cérebro esquerdo), a falta de sincronia entre os três estágios (cérebro réptil etc) e a desarmonia entre o córtex e o supracórtex durante o processo de recepção da informação, ou durante o processo de resposta do cérebro. É o centro pelo qual poderíamos ser capazes de reconhecer a nova espécie humana que começou a emergir nesta terra.
Elementos científicos a favor desta hipótese
É possível que, confrontada com o rigor científico, esta história possa parecer pouco coerente à primeira vista. Eu previ claramente, e não sem entusiasmo, que havia células-tronco neocorticais no cérebro humano, em 1986. A base de minha convicção era a seguinte: a evolução do cérebro humano não parou, e o que poderia vir depois da tríade cerebral era a evolução de uma consciência supracortical. A existência de células-tronco no cérebro garante um suporte logístico para esta idéia. Durante os seis anos (1979-1984) em que eu era um jovem pesquisador no serviço de bacteriologia e hematologia no ALL Índia Institute of Medical Sciences, tinha a dupla tarefa de examinar as lâminas da medula óssea e de fazer autópsias dos bebês natimortos. Eu ficava estupefato com a existência de pequenas células escuras ao redor dos ventrículos dos cérebros dos recém-nascidos (o terceiro é central, os outros dois são laterais). Nosso professor nos explicava que estas células estavam, sem dúvida, na origem de tumores como o meduloblastoma, o glioma e até o limfoma. Destas discussões surgiu o conceito de que estas células podiam ser células-tronco. Cheguei a um resultado de pesquisa, baseado no trabalho de Fernando Nottebohm, publicado no jornal americano Science, segundo o qual novos neurônios continuam a se formar na idade adulta, e assim tive confirmação de minhas convicções. Pude publicá-las sob forma de um livro que recebeu uma crítica no New England Journal of Medicine, de 29 de outubro de 1987, Vol. 317 (98), p. 1167.
A emergência de uma nova consciência neste centro é estimulada pelo estresse intenso, ou por emoções, como as produzidas pela pulsão sexual ou amorosa, como também a de vida ou de morte, circunstâncias em que o ego é fundamentalmente colocado em causa. As emoções de devoção, uma motivação forte, o apelo do Alto ou do Além, do interior e das percepções extra-sensoriais também podem favorecer esta transformação.
O desenvolvimento deste novo cérebro pela migração de células-tronco é uma idéia revolucionária para a neurobiologia do desenvolvimento. Os acontecimentos que surgem na vida intra-uterina e que continuam nos primeiros anos de existência poderiam então se repetir, talvez de uma maneira diferente (por causa da situação extra-uterina) enquanto o cérebro experimenta uma passagem através do “túnel” da morte, da vida ou do renascimento.
Examinemos agora os elementos que, na literatura científica, parecem ligados à consolidação desta idéia, mesmo neste estágio inicial.
Neuropoiese (fabricação) a partir de células-tronco neuronais.
As células-tronco têm duas propriedades distintas, a capacidade de auto-renovação e de proliferação para se diferenciar em células maduras. Uma célula-tronco pluripotente dá origem a diferentes células-tronco geratrizes. As células-tronco neocorticais constituem uma classe de células geratrizes provenientes dela. A existência destas células-tronco neurais foi provada nos invertebrados, nos peixes (cujo cérebro continua a crescer durante toda a vida), nos pássaros e nos mamíferos. Células-tronco neuronais foram examinadas detalhadamente em roedores. A literatura científica dos dez últimos anos do século XX é repleta destes estudos: Também no cérebro humano existe uma capa de células indiferenciadas para e peri-ventriculares (ao redor dos ventrículos laterais), a partir das quais novos neurônios continuam a nascer mesmo no ser humano adulto. Fala-se disso como a “medula do cérebro”, por analogia à medula dos ossos, onde residem ascélulas-tronco hemopoiéticas, isto é, a partir das quais são fabricadas as células sanguíneas. Surpreendentemente, temos hoje abundantes provas experimentais do comportamento destas células neuronais, análogo ao das células da medulados ossos, tanto in vitro como in vivo. Mencionou-se a possibilidade de origem comum com as células-tronco embrionárias. Cultivaram-se in vitro células-tronco neuronais pluripotentes, extraídas de embriões humanos e de fetos, tendo sido possível manter suas linhagens durante mais de um ano. Estas células foram utilizadas com sucesso como meios de terapia, transplantando-as sob forma de tratamento celular ou gênico. Foi possível melhorar certo número de desordens neurológicas onde há perda de neurônios (por causa de um trauma ou de uma degenerescência, como no caso da doença de Parkinson), doenças do tecido glial (problemas de desmielinização do envoltório dos nervos, como na esclerose em placa) ou desordens genéticas como a coréia de Huntington.
Trata-se de uma descoberta radical e revolucionária perceber que o cérebro humano possui células neuronais pluripotentes contidas na “medula do cérebro”. Além destas grandes implicações terapêuticas, tal descoberta exclui, com um tapa, a noção segundo a qual o cérebro humano representaria um final de beco sem saída da evolução. No momento, estamos em posição favorável, com estes recursos ricos no cérebro humano, para compreender sua contribuição possível a uma nova formação que será o estágio seguinte do cérebro ternário (réptil, límbico etc), tal como foi descrito por MacLean nos anos 70.
Formação de novos neurônios, migração e diferenciação
no pássaro adulto.
Fernando Nottebohm constatou que células primitivas, cujo lugar de repouso é abaixo de uma região do cérebro chamada epêndima, poderiam migrar até o lobo frontal para cumprir uma função muito sofisticada, como cantar. Relata que milhares de novos neurônios se formam no canário adulto macho, a partir destas células quiescentes e, como resultado desta migração de células novamente formadas, um núcleo chamado ventral-paracaudal hiperestriado aumenta de tamanho duas ou três vezes. Isso acontece na estação dos amores, durante a qual o pássaro macho, com seu núcleo que cresceu, torna-se capaz de cantar e atrair uma companhia conveniente. Ele nos faz observar que:
a) A estação dos amores para o pássaro é carregada de fenômenos elementares por causa do impulso sexual.
b) Os novos neurônios formados no pássaro diferenciam-se para cumprir uma função extremamente sofisticada, uma linguagem especial, o canto, isto é, ser capaz de captar uma vibração e exprimí-la, tudo com uma finalidade bem particular, a saber, o amor e o sexo, a sobrevivência e, finalmente, a transcendência da morte.
O que acontece no cérebro do canário pode também aparecer no do ser humano, uma vez que ele entre no terreno dos fenômenos de base: entretanto, o processo certamente difere em qualidade e também por causa da quantidade de fatores que controlam tal proliferação, emigração e diferenciação.
Argumentos vindos de uma pessoa que foi transformada.
Constataram-se mudanças coerentes na personalidade daqueles que sobreviveram à morte, seja nos serviços de reanimação de um hospital, seja na seqüência de catástrofes naturais, ou ainda de desastres devidos a causas humanas (bombardeios etc). Constatou-se que tais pessoas tornaram-se cheias de compaixão e mais flexíveis nas situações de estresse. São abertos a novas idéias e seu acesso é mais integrado. Freqüentemente, tornam-se mais criativos.
Hoje é aceito claramente, por pesquisadores clínicos numerosos e independentes, trabalhando em muitas partes do mundo, que uma proporção significativa de pessoas que retornaram à vida, após um contato próximo da morte, descrevem uma experiência espiritual notável, que transforma espetacularmente a continuação de sua vida. Além disso, parece que essas experiências seguem um modelo comum: no conjunto, são bastante semelhantes, qualquer que seja a idade, o sexo, a religião, o contexto cultural e educacional, ou ainda o estatuto sócio-econômico do paciente... Parece-me claro, após vinte e cinco anos explorando experiências próximas da morte, que, no conjunto, estas pessoas são afetadas, de maneira francamente positiva, por aquilo que lhes acontece. Não há medo da morte. Elas se reorganizam em torno da importância do amor e do interesse pelos outros: vivem o momento presente: tornam-se mais calmos e mais felizes”. (1)
Primeiro, seria interessante examinar se estes fatos sugerem um progresso em direção à formação de um novo cérebro. O cérebro destes sujeitos pode tornar-se um modelo para estudar a influência dos fatores espirituais sobre este desenvolvimento em curso.
Papel das emoções e do cérebro emocional na formação do Cérebro do cérebro.
Embora a emoção tenha grande dose de componentes inconscientes, é também um elemento importante de experiências conscientes diversas e variadas, que igualmente incluem os estados superiores de consciência. Entretanto, nem todas as emoções são úteis para compreender a consciência. Grande parte delas é sem interesse e mesmo um obstáculo. As emoções que se produzem com o poder de discernimento do córtex e da capacidade cognitiva, tornam-se refinadas. Entram no molde de uma consciência universal, supra-universal ou inter-universal...
Para os praticantes do bhakti-yoga, a emoção é um tesouro que sabem apreciar: uma emoção burilada e refinada que transcende o domínio da sensação e é chamada de devoção.
“Um firme amor de Deus, incessante e inabalável, que ultrapassa todas as outras formas de afeição e amor, e que é fundado e inspirado por um conhecimento pleno de sua majestade transcendente, chamado Bhatki, pelo qual se alcança a Libertação”. (Shri Madhvacharya, fundador de um grande movimento de bhakti na Idade Média, que persiste até hoje).
Em seu aspecto supra-cortical, a emoção é devoção. A devoção é o pólo terrestre do Amor. Por conseguinte, a emoção, que é a força motivadora principal para muitas atividades, é também sentida como indispensável depois de ter construído o “cérebro do cérebro”. Ela provoca, sustenta e ajuda a migração neuronal, vence muitos obstáculos pelo caminho, e consolida a posição dos neurônios que migraram para uma estabilização em um estado não-condicionado, desprovido, ele mesmo, de emoções.
Depois desta Consumação suprema, o pesquisador revisita o plano emocional, mas de uma maneira diferente. Ânanda, a felicidade, corresponde à consciência supra-cortical, que se manifesta biologicamente no nível dos núcleos límbicos. O “cérebro do cérebro” transforma o cérebro triádico subjacente, a fim de favorecer a manifestação da felicidade, Ânanda. Aqui, a emoção é produtiva, criadora e viva.
O centro de integração biológico e a elevação da kundalinî.
O desenvolvimento do “Cérebro do cérebro” é aquilo que Pandit Gopi Krishna (2), um místico experiente da Caxemira, chamou provavelmente de “alvo predeterminado” na evolução do cérebro humano para um novo patamar. Gopi Krishna pressentiu isso, experimentou-o e ficou profundamente perturbado por esta mensagem singular. Ele pensou que deveria existir um mecanismo orgânico que levasse a tudo isso. Ele o descreveu como a elevação da kundalinî. Ele próprio experimentou isso como uma “elevação violenta partindo de baixo”, ao contrário de Shri Aurobindo, outro gigante da mística contemporânea da Índia: seguindo suas próprias experiências, este último insistiu numa “abertura a partir de cima”. Esta abertura a partir de cima é descrita como fresca e doce, em oposição à abertura violenta que vem de baixo. Shri Aurobindo, o místico calmo e pacífico, encarava o espírito humano como pronto para evoluir, a partir de um pedestal sólido, em direção a um plano de consciência supramental. O “cérebro do cérebro” representa certamente esta plataforma sólida, o que explica sua quietude, sua calma e profundidade.
A elevação da kundalinî faz reentrar em jogo uma constelação inteira de mudanças no organismo humano, provenientes da iniciação e do desenvolvimento deste centro de integração biológica. Esta definição é orientada para a finalidade, e deixa de lado elevações tão mal dirigidas quanto mal digeridas, que são responsáveis pelo desenvolvimento de “doenças da elevação”, que vão desde a insônia até a loucura.
Este centro é, ao mesmo tempo, o centro da “Vida” e o centro para a “Vida”. A “Vida” emana dele para aqueles que estão prontos a se revivificar e rejuvenescer. Ele encoraja a liberdade e reforça a autonomia, assegurando assim a perfeição. Ele intervém simplesmente para anular as forças de desintegração. A campainha de alarme toca quando a morte toma a dianteira. Este centro avançado é também equipado para definir medidas que permitam prevenir as “doenças da elevação”.
O apelo de Pandit Gopi Krishna aos cientistas.
A elevação espontânea da energia kundalini no ser humano tem sido estudada cada vez mais. Os psicoterapeutas e psiquiatras têm se dedicado a colecionar casos deste fenômeno, sobretudo para aqueles que vivem uma elevação proveniente de baixo, que não está integrada no sistema. Se bem que, recentemente, pesquisadores ocidentais tenham se dedicado a descrever esta elevação provinda de baixo, com diferentes nomes de marca, por exemplo, “SEUS”, Spiritual/spontaneous Emergency Up Spine (Emergência Espiritual/espontânea que sobe pela Coluna) (John Galbraith, Martin Lockley no jornal Network, n. 71 e 72), ela é conhecida desde muito tempo na cultura indiana, e foi Pandit Gopi Krishna que reuniu o ethos da Ìndia antiga com a ciência moderna: ele enviou um retumbante apelo aos cientistas para que iniciem uma pesquisa sobre este fenômeno. É de opinião que o processo inteiro é uma evolução simbiótica do sistema nervoso em contato com um “carburante” produzido pelo sistema reprodutor. Durante a marcha evolutiva do cérebro para um patamar superior, um carburante refinado e da melhor qualidade é essencial e, segundo ele, provém da energia secretada pelo sistema reprodutor.
“O símbolo do lingam-yoni, que existiu na Índia desde tempos remotos, corresponde à ação invertida do sistema cérebro-espinal: ele utiliza cada parcela de bioenergia que pode recuperar. Normalmente, elas são consumidas nas relações amorosas, mas aqui elas servem para dar uma forma nova ao corpo e ao cérebro em situação de alta pressão. Neste processo, os órgãos do corpo implicam-se de maneira inextricável. Com a onda do néctar, destilado pelos nervos de todas as partes do corpo ate o interior do cérebro, a zona extática é transferida das partes genitais até à massa cerebral. O fenômeno é antigo e tão difundido que causa espanto não ter a ciência moderna nenhuma informação sobre ele atualmente” (Gopi Krishna).
Quando o cérebro está no processo de formação deste centro da coroa, necessita de um alimento especial e, segundo Gopi Krishna o alimento provém da “inversão” da energia sexual. A essência, a energia, o fluido da zona reprodutora alimenta este novo centro durante seu estágio de formação. Ao contrário da crença popular, a pessoa que experimenta tal “abertura” no cérebro tem uma atividade sexual potencializada. Esta crença e experiência de Gopi Krishna representam um apelo à nossa consideração, para que exploremos a contribuição e os efeitos de uma função da gônada aumentada sobre um crescimento acelerado do cérebro. Fisiologicamente, isto acontece quando uma pessoa entra na adolescência. Assim, é lógico pensar que um processo análogo poderia se repetir durante uma outra e, de fato, durante várias “novas” adolescências, pelas quais o “cérebro do cérebro” passaria.
Como os cientistas formulam esta questão de pesquisa visando explorar a idéia de uma inversão da energia sexual a fim de desenvolver um eixo gonada-cérebro-espinal? Será que esta “inversão” da energia acontece através da absorção, a difusão, o transporte de uma substância química volátil das gônadas, ou então de secreções através do sérum, ou a linfa ao redor dos nervos, ou por intermédio das plaquetas até ao líquido cefalorraquidiano? Será que ele é absorvido a partir das gônadas em direção ao sérum e, de lá, através de trilhões de terminações nervosas, continua seu curso elevando o fluxo dos axônios (as longas ramificações dos neurônios que formam a fibra elementar do nervo) até ao sistema nervoso central? Será que a medula dos ossos tem um papel lá dentro igualmente? Provavelmente, sim! Enquanto uma idéia não chegou até à medula (a medula dos ossos), ela não é tratada pela cabeça (o cérebro)! A “medula do cérebro” e a medula dos ossos têm conexões profundas através da intermutação de suas células-tronco respectivas e também através de diferentes espécies de interleukines! (Os interleukines são mediadores, entre outros, da imunidade e da inflamação). De fato, é uma linha divisória de pesquisa sobre a qual se pode trabalhar e que, certamente, merece a atenção dos pesquisadores em biologia humana. Esta hipótese é também necessária para aqueles que procuram uma explicação científica do Brahmacharya físico.
Prof. Ak Mukhopadhyay The Millenium Bridges – Towards the Mechanics of Consciousness and the Akhanda (indivibility) Paradigm Conscious Publications 22 B, DDA Flat, New Friends Colony, Tamoor Nagar, New Delhi 110065, Inde.
Extraído do Bulletin du Transpersonnel – nº 84 / octobre/2006
Publicado pela AFT – Association Française du Transpersonnel
www.europsy.org/aft
aft@europsy.org
|