Marc-Alain Descamps
Tradução: Mani Alvarez
Há alguma coisa em nós que escuta no silêncio. É preciso saber disso; só então podemos caminhar para atingi-lo.
Poderíamos chamar, talvez, de peregrinação ou exploração iniciática interior ? Pouco importa. Palavras são palavras. O vivido está alhures. É o estranho.
No fundo de nós mesmos há algo estranho. No fundo, bem no fundo. O problema é justamente ir até lá. Porque freqüentemente permanecemos na superfície, tão mentais, intelectuais, verbais.
Nessas funduras se encontra um abismo misterioso que não tem nada a ver com espaço, palavras, tempo, idéias.
Falar do ser é tão belo e tão nobre, mas unir-se a ele é essencial. E se passamos a vida falando dele (do ser), arriscamos não ter tempo jamais para encontrá-lo.
Lá onde víamos um ser, uma pessoa, não descobrimos mais que uma máscara enganadora e sedutora. Precisamos ultrapassar o escudo da pessoa, a sombra do eu (moi), a concha do ego
Precisamos parar de adorar ídolos (esquecendo que somos nós mesmos que os fabricamos!).
Afinal, esse abismo misterioso é feito de quê? Difícil dizer. Sentimos simplesmente que lá é seu lugar, desde sempre e para sempre.
Abismamo-nos aí com delícia, apoiamo-nos inteiramente nesse oceano de beatitude, o Eu se afoga aí numa doce e perfeita alegria, com a condição de que se deixar consumir no fogo ardente do amor – que não é outra coisa senão a consciência luminosa.
Agora só nos resta ir até lá. Para tanto, basta abrir a porta que nos leva para dentro de nós mesmos, nossa interioridade. Fiquemos numa posição confortável. Fechemos os olhos e mergulhemos. O que vemos? O que sentimos?
*PÉLERINAGE INITIATIQUE, por Mar-Alain Descamps, professor de Psicologia da Universidade Paris V, presidente da Association Française du Transpersonnel. |