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Entrando na Toca do Coelho...

Mani Alvarez

Porque será esta sensação de estranheza, como se estivéssemos entrando num lugar desconhecido e cheio de paradoxos? As novas idéias que surgem a cada dia nos fazem sentir como Alice no país das maravilhas, atravessando espelhos e se deparando com um mundo repleto de magia e mistério.

No domínio da física quântica, da neurociência ou da psicologia transpessoal surgem conceitos que nos lançam para um tempo de sonho, em que a realidade não é material nem fixa, mas flui ao sabor de nossos desejos. Será que estamos evoluindo ou resgatando velhos conhecimentos de nossos ancestrais? Os aborígenes australianos afirmam que o mundo da mente, da matéria e da energia emergiu como um sonho do “Grande Espírito’ há mais de 150.000 anos. Logo, somos nada mais que um ‘sonho’ de Deus...

Estranho? Depende de que lado do espelho você está.

Por mais incrível que pareça aos olhos cartesianos, a Física contemporânea entrou definitivamente na toca do coelho e afirma que esse estranho ‘mundo imaginal’ é ontologicamente real, talvez até mais real do que aquilo que percebemos com nossos cinco sentidos. Acontece que, quando saímos da percepção da consciência de vigília como um domínio real, tudo bruxuleia...

É nesse estado de espírito que nos deparamos com a Lei da Atração. O que é uma Lei? Segundo os entendidos, é algo que existe e persiste por si no tempo e no espaço. Por muitos séculos convivemos muito bem com a Lei da Gravidade. Ela é simples e fácil de ser assimilada. A gente a observa no dia a dia. Mas, a Lei da Atração desafia nosso entendimento, nossa visão de mundo, nossa identidade. Sua lógica é impecável, mas na prática...

O que diz a Lei da Atração? Que somos seres vibracionais e tudo que pensamos ou sentimos emite um sinal vibratório que irá atrair de volta o que foi emitido.

Aqui já começa um problema de difícil solução: afinal, o ‘quê’ é esse eu-vibratório? Nessas alturas já nem ouso perguntar quem sou eu, mas o quê sou eu? Destituído de sua entidade ontológica, meu ‘eu’ parece se desvanecer num feixe de fótons e elétrons que experimenta o mundo a partir de uma Lei – não mais de minha subjetividade.

Subjetividade? Que coisa mais antiga...

Bem diziam os franceses para se referir a uma pessoa: personne. Quer dizer, ninguém. Parece que estou ouvindo Buda dizer: você não existe. Não? Então, sou apenas o ‘script’ de mim mesmo. Legal! E onde fica esse ‘script’? No meu corpo? No meu cérebro? No universo?

Ah, escuto uma vozinha de dentro da toca do coelho dizendo: seu corpo é um ‘script vivo’, como se fosse uma Grande Mente, por isso não há separação entre sujeito e objeto, matéria e espírito. Você é uno com o Todo, por isso o que você pensa se torna realidade. E como num passe de mágica, entramos no tempo do sonho, neste magnífico universo sonhado por Deus. Um campo de muitas possibilidades.

Aqui começa propriamente a jornada do novo milênio. Uma concepção mais sutil de nossa identidade que culmina numa compreensão cósmica do ‘eu’. Estamos prestes a vibrar na oitava maior de nossa essência. Estamos em pleno contexto das teorias quânticas. Esse ‘eu’ que opera a lei da Atração é uma presença mais profunda, o nosso “Adão Kadmon” interior, o mesmo ‘eu’ que é refletido nas imagens arquetípicas dos grandes avatares de nossa história: Jesus, Moisés, Maomé, Krishna, Buda e todos aqueles que deixaram o testemunho de nossa verdadeira essência.

Importante lembrar: não estamos falando aquele ‘euzinho’ de nossa personalidade. O ‘eu’ que é feito à imagem e semelhança de Deus é aquele capaz de lidar com a luz, com o poder de vibração da energia.

Como opera a Lei da Atração? A matéria comum possui inércia, ou seja, ela resiste a nós. Se empurramos ou puxamos um objeto sólido, ele resiste com uma força que Newton chamou de ‘ação e reação’. A luz também pode empurrar ou puxar a matéria, só que suas partículas não têm a propriedade de inércia da matéria. Ou seja, a luz está sempre em movimento. E é por isso que ela não resiste ao nosso desejo. Ela é composta por ondas invisíveis que respondem aos impulsos de nossos pensamentos e nossas emoções.

Essa concepção é de tamanha grandeza que, diante dela, o escritor Nikos Kazantzakis se expressou consternado: “A substância dual de Cristo, o anseio tão humano, tão super-humano, que o homem tem de alcançar Deus...”

Pois, diante desse poder onde ‘o espírito e a carne são como dois exércitos em conflito”, não há como evitar a constatação de que estamos no limiar de uma grande transformação. Tomar as rédeas de nossa evolução nas mãos, essa é a questão de nosso milênio.

Até hoje temos criado nossa realidade de forma inconsciente e inconseqüente, sob o jugo de nossas paixões. Temos atraído sobretudo a escassez, que se manifesta em nosso mundo sob o signo da pobreza, de doenças, guerras, conflitos, desarmonia, desamor. Se o desejo é o que impulsiona o fluxo da Atração, que estranho destino nos leva a buscar o sofrimento ao invés da felicidade!

Aqui nos deparamos com uma particularidade da Lei da Atração, que é a Resistência. Quando estamos identificados com uma forma, uma idéia, um modo de ser, adquirimos a mesma propriedade da matéria: nós resistimos. Agora pasmem: essa resistência tem a ver com as emoções. E aqui nos deparamos com mais um mistério: como é que uma coisa tão etérea como as emoções podem criar resistência e nos tornar inertes como a matéria? Responde a neurociência: tudo que pensamos ou sentimos produz ressonâncias na complicada rede de neurônios do nosso cérebro. Podemos localizar, através de um mapeamento por aparelhos neurológicos, o caminho das emoções pelo corpo, impelindo comportamentos e atitudes. É possível mapear a raiva, a alegria, a maldade, o humor, a depressão e a felicidade em suas trajetórias pelo corpo.

Essas descobertas nos mostram uma realidade desagradável de se ver: temos de reconhecer que somos movidos por um certo combustível que é a química produzida por nossos pensamentos e emoções. Os neurotransmissores são canais minúsculos que conduzem por todo o corpo os hormônios que vão afetar nosso estado de espírito. Por exemplo, a dopamina é vital para nossa motivação física, a serotonima é a substância do ‘bem estar’, as endorfinas promovem uma sensação de calma e tranquilidade.

Escuto de novo os resmungos de Alice no país dos espelhos: mas, quem eu sou, afinal? Um saco de hormônios, como disse um cientista prêmio Nobel recentemente?

De fato, queiramos ou não, estamos na iminência de uma ultrapassagem do ‘meramente humano’. Quando conseguirmos controlar conscientemente esse complexo mecanismo neuronal que induz reações fisiológicas e comportamentais, quando pudermos comandar conscientemente nossas emoções de modo a seguir o fluxo da Fonte do Bem Estar, da Abundância e da Prosperidade, como tão bem descreve o livro sobre a Lei da Atração, então sim, estaremos prontos para viajar pelos universos paralelos do outro lado do espelho.

Vale repetir aqui as palavras do padre jesuíta Teillard de Chardin: “ Não há espírito nem matéria no mundo: o ‘estofo do universo’ é espírito-matéria. Nenhuma outra substância além dessa poderia produzir a molécula humana”.

É disto que trata a Lei da Atração: de consciências despertas para usar a energia do espírito.



PUBLICADO NA REVISTA MYTHOS - JULHO/ 2007
e no site www.cronicascariocas.com.br de julho/2007