Mani Álvarez
A Transpessoal é a ultrapassagem da noção de pessoa e do individual. Surgiu na década de 60, nos Estados Unidos, como um ramo da psicologia que reconhece e integra o anseio espiritual como uma necessidade básica do ser humano. Hoje, é a única abordagem que inclui a espiritualidade nos meios acadêmicos.
Sua metodologia é vivencial e integrativa. Associa conhecimentos transculturais de diferentes épocas com as mais modernas descobertas científicas da física, da biologia, da psicologia, da neurofisiologia, da teoria sistêmica, da emotologia (inteligência emocional), entre outras. O método vivencial é uma forma de conhecimento significativa e integrativa porque envolve o corpo, as emoções e a mente. Por causa dessa integração entre os diversos níveis do ser, produz resultados profundamente transformadores. Seu objeto de estudo é a consciência e os estados modificados de percepção da realidade. Por isso, podemos dizer que essencialmente a Transpessoal é um estado de supraconsciência.
Já o movimento Transpessoal foi fundado em 1969 nos Estados Unidos. Mas, em sua essência, a consciência Transpessoal sempre esteve presente nos momentos de salto evolutivo da humanidade. O que move a consciência a criar é uma força misteriosa que a impulsiona para além da pessoa, em direção ao bem coletivo. Só quando rompemos os limites individualistas do ego é que alcançamos a dimensão da transcendência. Isto, por muito tempo, foi confundido com religião.
Na verdade, não podemos falar de Transpessoal sem tocar na história da espiritualidade, seja no ocidente, seja no oriente. Embora o movimento Transpessoal tenha raízes americanas, a história da Psicologia Transpessoal na Europa é anterior e se origina numa longa tradição de místicos gregos, desde Plotino, Proclos, Jâmblico, entre muitos outros. Seus fundamentos se desenvolveram entre os místicos ingleses e alemães (Hildegard de Bingen e as místicas beguines; Maitre Eckhart, Jacob Boheme, Ângelus Silesius e outros), na tradição mística espanhola (João da Cruz, Tereza D´Ávila, os sufis de Andaluzia etc), italiana (Catarina de Siena), grega (os místicos contemplativos e o Hesicasmo), russa (Serphim de Sarov) e francesa (Marguerite Porette, François de Salle, Therèse de Lisieux etc.).
É bom lembrar que, quando falamos em “Psicoterapia Transpessoal”, este conceito foi usado pela primeira vez em 1916 pelo médico suíço C.G.Jung, quando se referiu ao “uberpersonlisch” e descobriu o inconsciente coletivo. Mais tarde, o italiano Roberto Assagioli aprofundou a noção de consciência transpessoal através da “psicosíntese” e o francês Robert Desoille criou a técnica do “sonho acordado” com excelentes resultados. Pierre Weill com o seu “Cosmodrama”, o austríaco Victor Frankl e a sua “Logoterapia”, e o alemão Graf Durkheim com a “Terapia Iniciática”, foram contribuindo para uma sistematização cada vez mais elaborada de um processo que tem como base a expansão da consciência.
Como vimos, a Transpessoal possui raízes originalmente européias, vindo a conhecer o sucesso que obteve nos Estados Unidos com Maslow, na década de 60. Seu princípio básico é a harmonização e integração dos níveis inferiores da pessoa (corpo, emoções e mente) com a sua dimensão superior (espírito), que é suprapessoal e experimentada como do âmbito do sagrado.
Por isso afirmou Jung que “ a proximidade do numinoso no ser é essencial num processo terapêutico. Quando entramos em contato com o sagrado, a doença se torna desnecessária”. Nessa descoberta se encontra o fundamento das psicoterapias e psicanálises de orientação transpessoal. A experiência do sagrado desvela o lado superior e divino do ser, promovendo seu encontro com os Valores, despertando-o para o serviço desinteressado e para a compaixão.
Agora talvez fique mais claro quando afirmamos que se o movimento transpessoal se originou em terras americanas, a experiência da consciência Transpessoal é muito antiga, e data dos primórdios da humanização. Esse termo se tornou muito conhecido através dos artigos de Maslow sobre as motivações humanas. Ele dizia que todos nós temos 5 motivações básicas que nos movem na vida: as necessidades fisiológicas , a necessidade de segurança , de socialização , de amor e de auto-realização . Mas ele percebeu que existe uma motivação muito mais importante, e que supera todas as outras: o anseio pela transcendência .
A este anseio ele chamou de “meta-necessidade”, pois vai além de todas as outras necessidades que movem o ser humano; porém, ela tem uma característica singular: nesse caso, esta força poderosa impulsiona a pessoa – não para interesses pessoais e egoístas – e sim, para o trabalho desinteressado, para o amor incondicional, para o serviço amoroso e a compaixão. Ou seja, existe em todos nós uma dimensão superior que nos atrai para cima, que age como uma força de atração para a transcendência, e nos impulsiona para além de nós mesmos. A essa força Maslow chamou “Transpessoal”.
Embora num primeiro momento, a Transpessoal tenha ficado vinculada à psicologia, por causa de sua sistematização realizada por psicólogos americanos, no resto do mundo ela se abriu a outras disciplinas, como à antropologia, à saúde, à educação, às artes, às organizações etc. Fundou-se a I.T.A. (International Transpersonal Association) sob a forma de uma rede informal e internacional, com o objetivo de levar a discussão a outros países.
Muitos Congressos já foram realizados desde então: Islândia (1972), Brasil, Finlândia e USA (1979), Austrália e Índia (1982), Suíça (1983), Japão (1985), USA e Praga (1992), Irlanda (1994), Brasil (1996).
Graças a importantes contribuições teóricas de autores como Ken Wilber, Charles Tart, Stanislav Grof, entre muitos outros, a Transpessoal é hoje ensinada em faculdades americanas e européias. Existem algumas que são especialmente dirigidas à transmissão da Transpessoal, como é o caso do Californian Institute Integral e o Institute of Transpersonal Psychology . Na França destaca-se a Association Française du Transpersonnel , com cursos abertos, pesquisas e publicações.
Nos últimos anos, tem sido a Transpessoal objeto de estudo na Austrália e Nova Zelândia, mas na América do Sul e no Canadá ela está apenas começando a se tornar conhecida. No Brasil o movimento ainda é bastante desconhecido e sofre as restrições e preconceitos do conservadorismo e do obscurantismo intelectual de algumas classes ou seitas.
Não há como não admitir que o paradigma Transpessoal abre uma nova visão de mundo, de ser humano, de ciência. Torna-se cada vez mais premente a idéia de que a tarefa mais urgente do século XXI será a exploração da consciência e dos estados superiores da supraconsciência, por seus efeitos de transformação pessoal e pela abertura que promove na ética e nos Valores humanos.
Por causa da importância desses efeitos humanizantes, a Transpessoal se tornou um instrumental valioso para ser aplicado em educação, na saúde, em organizações, em psicoterapia etc, a partir da experiência pessoal da supraconsciência.
Com o objetivo de dar subsídios teóricos e fundamentação metodológica a esse novo paradigma que surge – e que, por ser ainda mal conhecido, se presta a diversos equívocos – foi criado em Campinas o Humanitatis – Instituto de Formação Transpessoal. Particularmente atento em criar uma ponte entre a ciência e a espiritualidade, o Instituto organizou um curso de formação que promove paulatinamente, e sem riscos, o desenvolvimento da consciência Transpessoal através de exercícios, técnicas especiais e recursos psicofisiológicos. A expansão da consciência por esse método amplia a criatividade, abre novos horizontes, desenvolve toda a potencialidade do ser, promovendo a excelência humana em todos os aspectos. |